segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do Big Bang a Plutão


Entre os dias 3 e 14 de agosto acontece a XXVII Assembleia Geral da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) no Rio de Janeiro, para a qual são esperados cerca de 2.500 participantes de todos os países do mundo.

É curioso notar que um evento global como esse se mantenha vibrante numa época em que acontecem dezenas de eventos astronômicos a cada mês, todos bastante concorridos. Isso se deve, em parte, à pujança da pesquisa astronômica, mas também à vocação da IAU, que foi fundada em 1919 para estimular a colaboração internacional. Ela se reúne a cada 3 anos, sendo esta a primeira vez no Brasil. A escolha se deveu ao belo desenvolvimento demonstrado pela astronomia brasileira ao longo da últimas 4 décadas. Esta edição do evento é especial por diversos motivos. Estamos celebrando o Ano Internacional da Astronomia 2009 (www.astronomia2009.org.br), simbolizado pelos 400 anos do uso astronômico do telescópio por Galileu Galilei. Comemoramos também 400 anos da publicação do livro Astronomia Nova de Johannes Kepler, dos 90 anos da fundação da IAU e 40 anos da conquista da Lua. A IAU foi fundada logo após a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de estimular a colaboração internacional e está cumprindo seu papel de forma admirável.

Na assembleia se discute tudo: do micro ao macro, dos átomos e minúsculos planetas às galáxias e grandes estrutura cósmicas. Uma visão geral do programa pode ser obtida em http://www.astronomy2009.com.br. Além da pauta científica, o evento discutirá a estratégia mundial de desenvolvimento para a área na próxima década, o acesso das mulheres e minorias à carreira, a inserção da astronomia no ensino e sua divulgação nos meios de comunicação. O programa científico contém 5 Simpósios, 16 Discussões Conjuntas e 10 Sessões Especiais. Dessas 31 reuniões, 19 têm astrônomos brasileiros no Comitê Científico Organizador (SOC, na sigla em inglês), o que atesta a maturidade de nossa astronomia. Dados os recentes investimentos brasileiros na astronomia, como nos telescópios Gemini e SOAR, e dada a projeção internacional de alguns de nossos astrônomos, nosso país tem sido procurado para compor parcerias em projetos multinacionais de grande envergadura. Haverá uma Sessão Especial para discutir os Observatórios da Próxima Geração.

Os projetos internacionais na astronomia se iniciaram há pouco mais de 1 século e têm se ampliado cada vez mais. Aprendemos que problemas grandes podem ser atacados com recursos financeiros grandes. Os observatórios desta geração (Very Large Telescopes) reúnem diversos países e os da próxima geração (Extremely Large Telescopes) demandarão ações cooperativas de até 20 países. Os custos serão elevados, acima de US$ 1 bilhão só para a construção de um observatório, mas o número de usuários também será proporcionalmente grande. O Universo é um conjunto de laboratórios de física, varrendo condições impossíveis de serem reproduzidas na Terra. Temos muito a aprender observando-os com o maior detalhe possível, e os telescópios são os instrumentos para isso.

A IAU divulga os principais assuntos de sua assembleia para todo o planeta pela grande imprensa. Para apresentar com detalhes alguns dos resultados mais esperados, tem um jornal específico, em linguagem não técnica, chamado desta vez de Estrela d’Alva. Para a população da cidade do Rio de Janeiro está programada uma série de eventos, os chamados Eventos Associados. Eles ocorrerão em diversas instituições astronômicas cariocas e também na Tenda da Ciência, montada na Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal. No período de 5 a 8 de agosto (das 8h30 às 17h30 nos dias de semana e das 10h às 18h no sábado) espera-se que milhares de pessoas visitem a Tenda da Ciência, a exemplo do que tem ocorrido na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Os Eventos Associados programados podem ser vistos em http://www.astronomy2009.com.br/assocevts.html.

As notícias provindas da Assembleia Geral da IAU sempre têm grande repercussão. Qual terá maior repercussão, entretanto, é sempre uma surpresa. Para o mundo científico, os dois assuntos mais quentes do momento são: a aceleração do Universo e os exoplanetas. O primeiro por ser desconcertante, para não dizer vexaminoso. Ao contrário de todas as previsões teóricas feitas ao longo de um século, as observações astronômicas mostraram que o Universo está se expandindo com velocidade cada vez maior. Isso exige um tipo de força contrária à da gravidade, que seria dominante no Universo. Assim, a física só trata de 4% do Universo, deixando de fora a energia escura (73%) e a matéria escura (23%). Esse panorama assustador, entretanto, pode passar totalmente despercebido para os leigos. Os exoplanetas prometem ser assunto de boa repercussão, dado que eles são o Santo Graal para a procura de vida fora da Terra e o público entende bem a mensagem dessa área, a ponto de garantir seu financiamento. Mas é possível que o rescaldo do rebaixamento de Plutão a “planeta anão” volte à tona com certa força. A solução encontrada para reclassificar a multidão emergente de pequenos planetas do Sistema Solar tirou Plutão da categoria privilegiada de que ele gozava junto com os 8 planetas clássicos (de Mercúrio a Netuno). Como não existe um critério físico claro para fazer essa delimitação e como Plutão é de grande interesse para a comunidade americana (que tem inclusive uma nave indo para lá explorá-lo), podem surgir novas instabilidades nessa fronteira. Essa questão pode parecer pequena em termos técnicos, mas se torna relevante por afetar o sistema de informação. Afinal, é importante poder ter uma resposta clara para a pergunta de um professor do ensino básico: quantos planetas existem no Sistema Solar?

Fapesp

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