terça-feira, 14 de abril de 2009

Primeiro meteorito rastreado do espaço à atmosfera


Fragmentos encontrados no deserto do Sudão revelaram uma trifeta perfeita para asteróides: descoberta, previsão e recuperação de fragmentos.

Em outubro passado, monitores de asteróides do Catalina Sky Survey da University of Arizona, em Tucson detectaram um pequeno objeto em rota de colisão iminente com a Terra. O asteróide, muito pequeno para representar uma ameaça real ─ alguns metros de extensão ─ tinha poucas chances de penetrar na atmosfera intacto. De fato, explodiu como uma bola de fogo na estratosfera ao norte do Sudão menos de 24 horas depois ─ num evento testemunhado por observadores no solo e pilotos de um avião da KLM ─ confirmando as trajetórias previstas pelos astrônomos.

Mas o asteróide, denominado 2008 TC3, foi uma descoberta fortuita. Entre os incontáveis pequenos objetos que atingem a atmosfera terrestre todos os anos, nenhum tinha sido detectado e rastreado antes do impacto. O bólido do Sudão também teve outro aspecto inédito: um artigo publicado na Nature, em 29 de março, relata que foram recuperados 47 meteoritos do objeto no deserto da Núbia. Peter Jenniskens, astrônomo especialista em meteoros do Instituto Seti, em Mountain View, Califórnia, e autor principal do artigo revela que outra pesquisa concluída no início de março, elevou a contagem de meteoritos para 280.

Donald Yeomans, astrônomo que gerencia o programa de Objetos Próximos da Terra (NEO, na sigla em inglês) no Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, Califórnia, chama o 2008 TC3 de “trifeta perfeita” (termo originário da corrida de cavalos) referindo-se à descoberta antes do impacto, previsão bem sucedida e obtenção de amostras significativas.”

A descoberta permite que astrônomos relacionem a composição química do meteorito com sua órbita e reflectância no céu durante o rastreamento. “O grande desafio na área de asteróides é associar um determinado meteorito e sua composição detalhada à um certo tipo de objeto,” observa Yeomans. “E isso foi feito sem o envio de uma missão cara para obter as amostras.”

Esse objeto, que o autor do estudo chama de Almahata Sitta (palavra árabe para Station Six, uma estação de trem no deserto, onde testemunhas observaram a bola de fogo e que serviu de base de campo para os pesquisadores), parece pertencer a um tipo raro de objetos conhecidos como asteróides classe F que compreende apenas 1,3% dos asteróides.

Em relação à composição química, Almahata Sitta é um meteorito cuja composição é única entre os conjuntos de meteoritos. Trata-se uma ureilita porosa e frágil (um tipo de meteorito relativamente raro derivado de olivina e piroxeno) contendo grafite e nanodiamantes, entre outros materiais. “Sua fragilidade” avalia Jenniskens, “ajuda a explicar porque se desintegrou em altas altitudes da atmosfera.”

Além de ser um objeto raro, sua órbita, traçada retroativamente, permitiu que os pesquisadores estabelecessem uma possível relação com um asteróide classe F maior, com 2,6 km de diâmetro, conhecido como 1998 KU2, que pode ser parente do Almahata Sita.

“Acompanhar a órbita do asteróide, mesmo que somente durante 20 horas, é 10 mil vezes melhor que apenas observar uma bola de fogo explodindo,” considera Jenniskens. “O que é maravilhoso, é que o asteróide maior permite reconstruir sua história evolutiva,” segundo o pesquisador. Assim é possível determinar a região especifica do cinturão de asteróides de onde o 2008 TC3 partiu, e que deve conter mais asteróides classe F da mesma família.

Mesmo rastreado por um curto período, o 2008 TC3 forneceu uma excelente pista sobre o local para onde se deve observar ─ e um sítio ideal para encontrar fragmentos escuros.

As primeiras amostras foram encontradas no inicio de dezembro por um grupo de 45 pesquisadores da Universidade de Kartoum. Três cientistas dessa universidade e um quarto, da Universidade de Juba, no Sudão, estão entre os co-autores do estudo.

fonte: Scientific American

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